O essencial:
A proposta para avançar com um “diálogo concorrencial” foi chumbada pela maioria PSD na Assembleia Municipal.
Os argumentos foram os clichés habituais, enquanto as razões foram certamente as tentativas de sabotagem em mais lutas politico-partidárias.
Digo eu: Não se faz porque ainda não está feito, e não se faz porque não somos nós a fazer.
O relato:
A Assembleia Municipal é mais um daqueles rituais para o auto-contentamento dos políticos cinzentos que se querem mostrar com abertura à cidadania. É aberta à participação pública dando 3 minutos a cada cidadão que não se assuste com a burocracia e protocolo, draconianamente regulada por um presidente (desta vez o 1º Secretário) que tem o poder de cortar o microfone enquanto os deputados ainda todos conversam entre si.
Alertado por esta notícia soube que nesta 62ª SESSÃO DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL haveria uma proposta (11ª e última) que estaria ameaçada de ser votada contra pelo PSD, que estranhamente ainda conserva a maioria neste orgão. Proposta esta, que apesar de bastante escondida na gíria opaca, é a medida seguinte para tornar possível dotar Lisboa duma rede de bicicletas partilhadas à semelhança de outras grandes cidades mundiais.
Para eu intervir havia o período de uma hora antes, e chegando a 5 minutos do fim já só foi com insistência que consegui ultrapassar as reticências e queixas de “que já é tarde”. Senha Nº4, subir escadas, ditar dados pessoais, esperar por impressões de “fichas individuais”, assiná-las, enfim …
Mesmo assim, ainda foi possível esperar sentado para que o presidente da assembleia iniciasse a sessão, 20 minutos depois da hora. Os outros participantes lá leram os seus discursos sem levantar olhos para os senhores e senhoras deputados que ainda ruidosamente conversavam, talvez à espera do verdadeiro começo. Foi a minha vez, e com algumas notas rabiscadas numa página de publicidade lancei o “assunto de interesse municipal” que me preocupava. Adicionei que não gostava da “galhofa” com que alguns falavam sobre o tema, e o presidente alertou-me que não podia faltar ao respeito (ver mais abaixo o que aconteceu entre deputados). Sintetizei as minhas preocupações e tentei concluir com o desagrado pela falta de respeito em a sessão começar 20 minutos atrasada … e logo aqui o microfone começou a falhar intermitentemente, para depois projectar a minha voz felicitando ironicamente a cultura democrática do deputados que entretanto continuavam a conversar entre si.
Sem um fast-forward de 4 horas, teria de vos falar de muitos lastimáveis exemplos do que é a praxis duma assembleia de profissionais em representar os cidadãos. Fica para outra altura, porque a quente ainda me arrependeria…
Para quem viu a transmissão em directo (haverá alguém? porque não disponibilizar as sessões em diferido?) notou que foi só no último ponto (às 19.15) que todos os deputados “acordaram” e então houve polémica…
Noto dificuldade em relatar com exactidão o que se passou, uma vez que falta transparência nos termos e procedimentos, mas mesmo assim atrevo-me.
O deputado do PSD Victor Gonçalves, na primeira vez com o chapéu da “Comissão de Urbanismo e Mobilidade” tentou explicar que esta já era a 2ª proposta que tinham analisado e que “teriam” de rejeitar. Aprofundou as preocupações, já com o chapéu partidário, no que toca à falta de transparência do projecto que poderá chegar ao 50 Milhões de Euros. E mostrou-se do lado “hip” dizendo que um projecto como este não é brincadeira pois quer-se de facto um “sistema alternativo”, para em seguida argumentar contra de forma clássica: “Não há estudos” “nunca vejo ninguém a andar de bicicleta” “não estou a ver ninguém que as vá usar”. Terminou dizendo que o Túnel do Marquês “só” custou 30 Milhões.
O Vice-Presidente Marcos Perestrello, também vereador da mobilidade veio defender o “seu” projecto. Que esta proposta era apenas com vista a autorizar repartir encargos, uma vez que o projecto tem um horizonte de 10 anos e isso obriga-o a passar por votação em Assembleia Municipal. Mas tentou descansar as hesitações garantido que não representaria qualquer custo uma vez que o projecto seria auto-suficiente “como nas outras cidades”, através de receitas dos utentes e publicidade.
Ao “blocão” seguiram-se as minorias, e confesso que fiquei espantado com as posições.
Um deputado do Bloco de Esquerda realçou o futuro título ser próprio e não integrado com os cartões multimodais já existentes. E questionou-se como foi possível projectar 2.500 usuários diários sem inquéritos a preferências declaradas. Vaticinou que esta medida será um convite ao aumento de acidentes, comparando as bicicletas com as motos que também não tendo vias segregadas estão mais vulneráveis. Queria portanto mais ciclovias. Referiu também, em consonância com o PSD que o mesmo investimento daria para comprar 33 autocarros de última geração para a Carris (a mesma não é da CML, será ele da Carris?) E acabou em tom jocoso com a estória do seu camarada que “chama a isto o Plano Paulson para os utilizadores de bicicleta”.
Os Verdes categorizaram de boa ideia, mas que teria resultados desastrosos e por isso se iriam abster (mas acabaram por votar contra)
O PCP falou o típico discurso de que é difícil andar de bicicleta, e sinceramente em tal tom monocórdico que duvido que alguém tenha percebido a sua posição.
O CDS culpou os motoristas da “impossibilidade” de andar de bicicleta, mas ficaria satisfeito com a garantia de que o projecto seja auto-financiado.
Ora esta garantia foi com o que o vereador da mobilidade tentou chegar ao consenso com o PSD, prometendo-lhes que seria introduzida esta alínea no programa do concurso e que seria eliminada a menção a “repartição de encargos”. E devo-vos dizer que é com estes procedimentos que o comum dos mortais fica desmotivado para assistir a derbies de política profissional , pois até o presidente reparou que sem esta “repartição” então a proposta não teria de ser naquele órgão discutida e votada. Se por um lado poderia ser forma de ultrapassar bloqueios, por outro é repugnante as habilidades possíveis para “trazer água ao meu moinho”.
Contudo, o PSD não ficou satisfeito e entrou-se numa nova batalha partidária. Houve insulto pessoal, reparos à legitimidade do próprio órgão, e claro está ridicularização da bicicleta…
Perguntaria-se o que teria acontecido ao cidadão comum se do alto dos seus 3 minutos de fama dissesse que os deputados “galhofam” do uso da bicicleta, quando eles “apenas” podem impunemente dizer:
“24mil viagens de bicicleta por ano, ficaria espantado (e pantomima a condizer)” “publicidade nas bicicletas? já estou a ver o ciclista de cartaz às costas a dizer TMN, estão a ver?” “eu tenho ali a bicicleta dobradinha no carro… e não sou capaz de subir …” tudo isto acompanhado de muitas risadas e “bocas”
Votação final, o CDS-PP votou a favor com o PS e todos os outros votaram contra rejeitando assim a proposta. O que irá acontecer ao projecto? Não sei, mas espero que se o explique melhor para que haja mais gente capaz de o defender. Por agora, anda-se de carro, muitos motoristas à espera (era todo o público que restava ao final) e lucros para quem gere o parque ali ao lado.
Update: Links para jornais:
Sol – Lusa –
Correcções:
- alguém com acesso a terminais da CML corrigiu-me dizendo que afinal o PEV absteve-se. Como se pode ter acesso às actas e às votações?
19/11/2008 at 01:34
obrigado pelo relato.. e infelizmente pelo triste relato
19/11/2008 at 02:01
Mas que triste sina… Os interesses instalados, o debate político enfermo, as bocas da geral, as risotas entoladas disfarçando o incómodo que a mudança de paradigma suscita… Enfim, uma democracia bacoca em que o cidadão é ignorado, a mudança adiada e a própria morte anunciada…
19/11/2008 at 06:53
Que triste democracia. Que tristes deputados. Tenho pena deles. Obrigado João pela tua descrição.
19/11/2008 at 13:34
Felicito-te pela tua coragem em participares na sessão da Assembleia Municipal: é um verdadeiro gesto de cidadania! E por outro lado permitiu-nos ficar a saber o que lá se passou.
Só vejo uma solução: é que vão haver eleições autárquicas para o ano e , então, a maioria na AM pode mudar como já mudou nas eleições intercalares (deste ano) para a Câmara(note-se que foram só para a Câmara mantendo-se a situação na AM com maioria do PSD)…se o PS e a esquerda tiverem uma boa votação em 2009 porventura a maioria na AM muda e este projecto das bicicletas partilhadas avançará… Espero que sim…
19/11/2008 at 13:43
Não podemos esperar pelos políticos, os nossos servem outros interesses, e têm mentes pequenas. Se queremos fazer algo, temos que arranjar maneira de o fazer nós próprios e chegar a um ponto em que são os políticos que nos procuram para nos servir porque ganham alguma coisa com isso (visibilidade, votos, whatever.
19/11/2008 at 16:48
“nunca vejo ninguém a andar de bicicleta” … O sr victor gonçalves que experimente sair de casa… que triste figura…
19/11/2008 at 18:05
Que cena! Já estou na mira dos “boys” partidários…
acabei de receber um comentário no blog, noutro post (será que sabem usar blogs?), vindo dum IP da camara (será para isto que são pagos os funcionários?)
É sinal de que vale a pena ir lá às sessões, fazer barulho, e telefonar para chatear (obrigado Marcos)
Novo comentário na sua entrada #120 “Cortina de Aço”
Autor : eu quero ser califa no lugar do califa (IP: 194.65.1.253 , mailpub.cm-lisboa.pt)
E-mail : califa@gmail.com
URL :
Whois : http://ws.arin.net/cgi-bin/whois.pl?queryinput=194.65.1.253
Comentário:
tinha valido a pena ter assisitido com mais atenção à sessão.
Talvez tivesse ficado a saber que os Verdes se abstiveram, de facto, e não votaram contra.
Quanto à posição do PCP, que teimou em não escutar (ou em não reproduzir no seu blogue…) tem a ver com as questões de segurança dos utilizadores e, acima de tudo, com um negócio de contornos altamente obscuros, envolvendo 50 milhões de euros do dinheiro público, visando, na tradicional obsessão do PS, criar mais uma área de negócio para os privados se encherem.
É verdade que ninguém informou os cidadãos sobre este aspecto, mas olhe que o seu amigo perestrello nem aos deputados municipais conseguiu explicar como é que com um investimento de 50 milhões existiria um suposto saldo zero para os cofres municipais!
Nem pedalando muito!
19/11/2008 at 18:22
Em jeito de resposta:
- Ainda bem que os Verdes apenas se abstiveram, mas espero que para a próxima sejam capazes de trabalhar para uma proposta melhor que votem a favor.
- A posição do PCP foi muito díficil de ouvir com atenção, e não sendo jornalista não me cabe tentar alcançar a pseudo-isenção para “reproduzi-la” aqui. Eu, no seu lugar, ficaria mais preocupado com os deputados que, SIM, teimaram em não escutá-la pois falavam entre eles… eu ainda _tentei_ ouvir
- Eu duvido que seja essa a intenção de quem propôe o projecto. Que é obscuro concordo! Peça-se para explicarem o projecto, não se argumente contra a necessidade dele!
- Eu não tenho amigos, ou conhecidos como políticos profissionais. Se lesse com atenção as entrelinhas do meu(s) post(s) veria que sou muito reticente acerca desta classe.
- Uma vez que parece que lá esteve, sabe que foi proposto que haveria uma alínea assegurando que o projecto teria de ser auto-sustentável. Ora, mesmo não sendo advogado, parece-me que é simples perceber que se os privados que estivessem interessados em gerir a rede não conseguissem resultados o prejuízo seria deles. É aqui que concordo consigo que tudo teria de ser muito claro e infalível. Mas não se ridicularize a bicicleta como meio de transporte, mais uma vez!
19/11/2008 at 22:47
É sempre a mesma coisa, quando alguém tenta fazer algo de francamente bom. A inveja vêm ao de cima, e como não se lembraram disso antes, toca a deitar abaixo.
Como é que alguém se pode preocupar com o lucro da empresa que ía explorar a rede de bicicletas? Não será que todos ficávamos a ganhar?
Será que pensam que quando andámos de carro e autocarro, empresas como as petroliferas não têm lucros? Com essas é que esses partidos deviam preocupar-se.
Tenho a certeza que o futuro a todos nós vai dar razão. Não se esqueçam é impossivel vencer alguém que não desiste.
20/11/2008 at 01:15
Caros utilizadores de bicicleta vamos assistir a isto calados ou vamos fazer alguma coisa.
Se o tal Vitor Gonçalves e ous outros malcriadões não vêm bicicletas podemos fazer com que vejam na praça do município – e que tal ir a pedalar à volta do carro deles?
Vamos organizar-nos para fazer alguma coisa ou vamos ficar a chorar – de medricas e imbecis temos um país cheio, marquemos a diferença!!!
É marcar uma concentração e avisar os orgãos de comunicação social….
20/11/2008 at 12:20
que eu saiba o plano Paulson nao é para os cidadaos mas para o “Capital”
Ora era isto que estava em causa, o dar-se milhões a uma empresa em vez de fazer concurso publico..
Sei que ha muita gente que gostava de ter concorrido… se houvesse um concurso publico para fornecimento e manutenção das biclas
Agora; chamar 3 empresas e dar o projecto a uma é pouco participativo…. entendem onde quero chegar?..,
As bicicletas claro que são bem vindas.
20/11/2008 at 16:18
Nuno, apoiado!
20/11/2008 at 19:38
Não se esperaria outra coisa de gente que se faz deslocar em automóveis de alta cilindrada, alguns com motorista, e que não vê nada além da janela de vidro (fumado) do seu poiso numa qualquer fila de transito.
É triste que a maior parte dos desígnios da sociedade esteja, regra geral, nas mãos dos que, numa discussão com um dos filhos, podem cantar coisas do género: “ir de bicicleta prá faculdade, ahahah, toma lá uma carro, olha, leva um cabriolet, tem mais pinta pra ti, que és jovem”
20/11/2008 at 19:48
Mais! É uma vergonha haver gente crescida a comportar-se como crianças de primária, pior ainda quando essa “gente crescida” são os “representantes do povo” e em lugar da primária temos, neste caso, a assembleia municipal (podia ser a-da-républica, tudo merda do mesmo balde).
Sou só eu, ou o trabalho feito por 20 deputados de um lado, 30 do outro, 50 mais além, podia ser feito por 2, 3 e 5, cada grupinho da sua cor? Mantinham-se as maiorias, as proporções eleitas, e poupavam-se umas dezenas (centenas) de ordenados sacados aos contribuintes, dinheiro que, num país chamado utopia, podia ser bem usado (e aqui já estou a ser um maluco) para o bem de todos…
21/11/2008 at 17:01
[...] Vale a pena ler o relato. [...]
21/11/2008 at 17:48
“…ser votada contra pelo PSD, que estranhamente ainda conserva a maioria neste orgão”…chama-se a isso democracia meu caro.
Estranho mesmo foi o CDS ter votado a favor…
22/11/2008 at 04:05
Sobre o engulho que o PCP tem com os privados sempre achei que eles não se preocupam que haja pobres, desde que não haja ricos.
Ou como diz um amigo meu, doi-lhes mais o bem alheio que o mal próprio.
22/11/2008 at 14:10
Quem era o representante do Bloco na Assembleia?
Isso dos 33 autocarros tem algum fundamento?
24/11/2008 at 12:40
Estou com a Ana – temos que ser nós a fazer algo – e também com o Nuno – não podemos ficar calados.
Há que reclamar as ruas e para isso há que utilizá-las….e por toda a gente a utilizá-las.
25/11/2008 at 13:02
Lembrei-me agora, seria giro cada ciclista que ande de bicicleta com alguma regularidade em Lisboa enviar uma carta ou um mail de apresentação com uma foto (incluindo bicicleta e referência lisboeta em fundo) para os Victores Gonçalves da Câmara.
Ou mesmo fotos de bikes estacionadas pela cidade. Eu faço colecção, mas não está separada por locais… [People on Bikes + Parked Bikes]
25/11/2008 at 18:58
Sobre a posição do Bloco de Esquerda ler:
http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=9356&Itemid=46
A questão da segurança é de facto uma falsa questão – os carros não provocam acidentes? – mas a questão do dinheiro não o é. De facto, 50 milhões para um esquema de bicicletas é algo estranho, sobretudo tendo em conta que não seriam construídas ciclovias.
Vejamos a proposta com mais atenção, o que está em causa não é na realidade a defesa do ciclismo. Antes fosse isso o que motiva esta malta.
28/11/2008 at 12:03
[...] Hoje, em Lisboa, às 18h no Marquês de Pombal, e depois uma volta por Lisboa, em bicicleta, celebrando este modo de transporte. A ver se o grupo apanha o deputado municipal Victor Gonçalves a sair do trabalho para que ele veja algumas das bicicletas e…. [...]
05/12/2008 at 14:38
[...] Quando estivermos todos lá, convidamos os deputados da Assembleia Municipal de Lisboa a conhecer os ciclistas, que, como o Victor Gonçalve…… [...]